O fenômeno audiovisual na internet

Como youtubers disseminam conhecimento pelas redes sociais

O século XXI está sendo marcado pela revolução que a internet impõe aos meios de comunicação. Nos dias de hoje, as formas como a informação é disseminada se multiplicaram e diversos tipos de veículos de notícias tradicionais tiveram de se adaptar à uma nova linguagem para manter o alcance de sua audiência. Um dos fenômenos oriundos do mundo virtual, que é um dos causadores dessa repaginação midiática, é o fácil acesso à divulgação e postagem de vídeos. A cada dia os canais do YouTube  somam bilhares de visualizações e interações nas redes sociais. Segundo o site da plataforma, são mais de 1,9 bilhão de usuários conectados, gerando bilhões de views todos os dias.

Para suprir essa demanda de consumo audiovisual entram em cena os Youtubers, pessoas que produzem vídeos periodicamente com conteúdos diversos para a internet. Muitos canais já contam com milhares de inscritos, trazendo fama e notoriedade para os youtubers e o que dizem. Para se ter uma ideia, o maior youtuber da atualidade é o sueco Felix Arvid Ulf Kjellberg, ou PewDiePie, como é conhecido: sua conta possui mais de 81 milhões de inscritos, ávidos pelos últimos vídeos de conteúdos diversos e pessoais. No Brasil, o maior canal do youtube é do Kondzilla, produtora de conteúdo audiovisual de música eletrônica e comportamento das periferias do país. Essa nova onda de criadores de conteúdo gerou uma maior interação com o público que consome o material divulgado, estabelecendo os critérios dos materiais produzidos e difundidos pelos youtubers.

 

Experiências para quem está começando

O criador do canal Livrada, Yuri Al’Hanati, explicou, em entrevista ao CRC, que a ideia de fazer vídeos surgiu por acaso. O Livrada teve início em 2014, inspirado em seu blog de literatura existente desde 2010. “Na realidade eu caí por acidente nisso, o canal no Youtube na verdade foi ideia de uma amiga”, contou Yuri. Apresentando conteúdos literários, como resenhas de livros e entrevistas, ele explica que o critério para os livros apresentados é variado, “Geralmente os livros que falo no canal são presentes ou indicações” explicou. Os entrevistados do canal mudam de acordo com a disponibilidade, sendo que alguns, inclusive, são obras do acaso, fruto de algum encontro em determinado evento ou situação.

 

 

O objetivo inicial para divulgar na internet suas experiências literárias e percepções sobre o assunto veio de uma decisão que correspondia aos seus anseios pessoais. Segundo Yuri, chegou uma hora que foi preciso encontrar uma alternativa que conciliasse seu conhecimento e interesse por literatura fora do horário de trabalho convencional.  O público identificado por ele geralmente são de usuários na faixa dos 25 aos 34 anos, que buscam alternativas de leitura que não aparecem na grande mídia. Com mais de 32 mil inscritos, ele também aborda a importância de receber e entender críticas, ressaltando que elas fazem parte do debate de ideias.

Um exemplo de crítica construtiva recebida foi em relação à seriedade com que as resenhas estavam sendo apresentadas, tendo em vista o certo tom humorístico ao qual os usuários estavam habituados. Para manter a naturalidade dos vídeos, ele opta por grava-los de improviso, o que ocasionalmente pode acarretar em algumas imprecisões de conteúdo, mas isso é algo que ele considera normal e próprio do trabalho jornalístico.

Um dos conselhos que Yuri tem para quem está pensando em começar uma página de conteúdo audiovisual, é ter paciência e periodicidade. O sucesso de um canal demanda tempo, a exemplo do próprio Livrada, que possui 4 anos e ainda não alcançou um número superior aos 100 mil inscritos, “Acho que mesmo não bombando tanto assim o canal está no caminho certo”, comentou.

 

O diálogo com o público

“Ocasionalmente, é possível identificar espectadores que, mesmo tendo uma visão completamente distinta do mundo, ainda assim conseguem estabelecer um diálogo inteligente e saudável, e isto é incrível”. É o que fala Henry Bugalho, em entrevista ao CRC. Dono do canal homônimo, com mais de 180 mil inscritos, ele crê que todos devem tirar suas próprias conclusões a partir de informações que conseguem extrair do mundo ou dos livros. “É preciso desenvolver o senso crítico, acima de tudo”, reforçou o youtuber.

Seu canal entrou ao ar em 2015, então chamado de Vlog do Escritor, com a intenção inicial de compartilhar conhecimento relevante para escritores, sobre o mercado editorial e contribuindo para a formação de novos autores no Brasil. Devido à periodicidade com que abordava conteúdos com temas politizados, os seguidores passaram a pedir mais conteúdo relacionado. “A transição de fato de um canal literário para um canal de comentário político se deu durante a eleição, principalmente em reação à candidatura do Bolsonaro”, comenta Henry.

 

 

Aprofundar e comentar as pautas atuais abordadas na imprensa e na internet são o principal objetivo do canal de Henry Bugalho, porém, conteúdos com temas filosóficos e discussões que possam gerar material de discussão em sala de aula também são apresentados. “Mais de uma vez vídeos que produzi foram usados por professores de Ensino Médio ou em Universidades – esse reconhecimento é muito gratificante”, conta o escritor. Em seu canal também são divulgadas notícias, o que aumenta sua criteriosidade na hora de se informar sobre o assunto, e comenta que pesquisa diferentes publicações antes de abordar qualquer tema nos vídeos: “Sempre tento me respaldar de diferentes fontes, com reputação consolidada, antes de gravar um vídeo. Isso não evita o erro, mas fortalece bastante a defesa do conteúdo”.

Hoje, devido ao aumento significativo de comentários em cada vídeo, o contato direto com os seguidores fica mais difícil e raro, “No começo, conseguia interagir mais e rolava altos debates nos comentários dos vídeos. Hoje, é impossível, pois um único vídeo pode ter milhares de comentários.” comenta o youtuber,que consegue identificar um padrão mais progressista nos usuários que acompanham o seu canal, sendo a maioria jovens e acadêmicos de 25 a 34 anos, mesma faixa etária do canal Livrada.

Henry também aconselhou quem quer passar de espectador à produtorde vídeos: “Todo começo é complicado. Você produz conteúdo e a repercussão é mínima, quando há. Inicialmente, você fará vídeos para 10, 20 espectadores. Mas é preciso insistir, estar sintonizado com os temas que estão sendo debatidos e trabalhar sobre eles desde a sua área de conhecimento” explicou ele.

Democratizando conhecimento

Com essa popularização dos conteúdos em vídeo, a disseminação de diversos tipos de assuntos e ideias ganhou uma proporção talvez inimaginável em um passado não tão distante. A facilidade com que os usuários da internet se expressam e expõem o seu conhecimento para o mundo virtual trouxe mudanças de comportamento na sociedade em geral, não somente no campo digital, para o bem ou para o mal. Apesar dessa tendência ainda ceder espaço para aqueles que espalham desinformação – propositalmente ou não -, é possível encontrar conteúdos de qualidade e relevância sobre quase quaisquer assuntos, hoje em dia.

Em época de pós-verdades e notícias falsas (fake news), é dever de todo cidadão buscar fontes confiáveis de informação e educação, questionando-se acerca de suas próprias convicções. Dito de outra maneira, não é somente por que certo canal divulga informações que condizem com a “minha forma” de pensar que “eu” devo consumir o que é dito sem ir atrás das referências e fontes usadas. O pensamento crítico faz parte da evolução da sociedade e do papel individual de todos que buscam argumentos sólidos e verídicos. Como conclusão, fica a dica: esbalde-se nos inúmeros e incríveis conteúdos audiovisuais que estão sendo produzidos e difundidos na internet! Mas sempre verifique a origem das informações e o tipo de ideologia que existe por trás de cada youtuber, pois, como já cansou de dizer o ditado, uma mentira dita mil vezes se torna verdade.

 

Siga o canal do Centro Ruth Cardoso no Youtube.