São Paulo e o meio ambiente urbano

Algumas impressões sobre a sustentabilidade na maior cidade do país

Quase às margens da década de 2020, cidades do mundo inteiro buscam alternativas para se tornarem cada vez mais sustentáveis. Em Lisboa, por exemplo, o incentivo ao uso de carros elétricos é feito com a distribuição de estações de abastecimento gratuito pela cidade. Na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, foi criado o Programa Desperdício Zero, que tem a meta de reaproveitar tudo o que é reciclável em seu lixo, até 2020. Aqui no Brasil, Florianópolis lançou o planejamento operacional “Floripa Lixo Zero”, que é a formalização de um compromisso de recuperar 90% dos resíduos orgânicos e 60% dos recicláveis secos descartados na cidade, até 2030.

São Paulo é considerada o termômetro econômico de nosso país, sendo assim, sua responsabilidade perante as cidades brasileiras é de estar um passo à frente quando o assunto é  modernização e avanço. Para isso, é necessário analisar o cenário da capital paulista e sua relação com meio ambiente e a sociedade. Tendo em vista os caminhos que cidades de vanguarda estão optando com relação à  preservação do meio ambiente, são pensadas novas formas de cuidar dos recursos naturais de São Paulo conservando a sua história.

O histórico começa pela água

Não se pode falar de São Paulo e seu meio ambiente sem citar a relação com seus três principais rios e afluentes. Os rios Pinheiros, Tamanduateí e Tietê fazem parte da história dos habitantes da região muito antes dos colonizadores chegarem ao que viria ser a capital paulista. Sabe-se que, desde o uso para a alimentação das tribos indígenas pré-coloniais, até para o transporte de mercadorias já no Brasil colonizado, os rios eram figuras fundamentais para o desenvolvimento da região.

Com o crescimento da indústria cafeeira no século XIX, a cidade assume maior importância na economia do país e sua área urbanizada começa a expandir. Com essa evolução, a especulação imobiliária aproveitou o receio da população em estar em contato com as partes poluídas dos rios e a proximidade das áreas de cheia com o centro da cidade, para dar início a um processo de aterramento e cobertura deles. Um dos exemplos é a região do Vale do Anhangabaú, que antes dava espaço a um ribeirão e hoje abriga uma das maiores áreas urbanizadas da cidade.

O descaso com os rios ao longo da história da cidade levou a uma situação alarmante em relação a seus recursos hídricos. Em 2017, a Secretaria do Meio Ambiente divulgou a Base Hidrográfica do Estado de São Paulo, com os mapas que indicam as condições dos rios paulistas. Esse estudo apontou que praticamente toda a água dos rios do estado, ao chegarem na capital, se tornam poluídas e impróprias para quase todos os tipos de uso, seja para lavar os alimentos ou consumo pessoal.

Pensar em políticas para preservação e valorização dos rios, tratando-os como fonte de recursos, oportunidades e bem-estar, pode influenciar outros setores que também necessitam de saídas sustentáveis para aquilo que pode ser erroneamente percebido como obstáculo. Uma das soluções para o alto trânsito de cargas, transporte de lixo e diminuição do fluxo nas rodovias são as estações hidroviárias, propostas inicialmente pela FAU com o projeto do Hidroanel, por exemplo.

Visando utilizar os rios Pinheiros e Tietê para resolver a superlotação das vias urbanas, essa solução, que já têm aprovação do governo, ainda levará um tempo para sair do papel. Sua implementação e conclusão é prevista para longo prazo, algo em torno do ano de 2045, mas seria uma alternativa nos padrões da cidade de Amsterdam, que já utiliza os rios como meio de transporte e que é usada como exemplo para a implantação do plano hidroviário na capital paulista.

Os cuidados ao alcance da população

A megalópole com o maior número de habitantes do Brasil – são mais de 12 milhões – produz resíduos na mesma proporção. Cerca de 15 mil toneladas de resíduos são descartados todo dia em São Paulo, sendo que, dessa quantia, apenas 1% têm como destino os centros de reciclagem. Mesmo com uma conscientização crescente sobre esse assunto nos últimos anos, a população ainda tem muito o que evoluir quando o tema é cuidado com o meio ambiente urbano.

Diversos cidadãos têm atitudes básicas de cuidado ambiental, como usar sacolas ecológicas nos supermercados, optar por meios alternativos de transporte (como a bicicleta) ou fazer a separação correta do lixo doméstico. Esses são alguns dos efeitos de uma maior consciência ecológica que vem surgindo na população nos anos mais recentes. O descarte do lixo eletrônico, um dos principais causadores da poluição das matas e rios, recebeu um aliado: são cerca de 20 pontos de coleta espalhados pelos parques da capital paulista, como no Ibirapuera ou no Trianon. A cidade apostou também nos jardins verticais para preencher o cinza da cidade. Em diversos locais, paredes verdes foram instaladas para mudar o ambiente urbano, contribuindo para redução da poluição do ar e sonora, bem como ajudando a minimizar o calor das áreas imediatas. Como no elevado Presidente Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, que hoje conta com jardins verticais assinados por artistas.

Mesmo com a preocupação da sociedade com um tema que está cada vez mais em evidência, ainda são muitas as mazelas existentes para São Paulo ser um modelo de grande metrópole sustentável. Um exemplo são as cerca de 9 milhões de pessoas ainda não alcançadas pelos programas de coleta de lixo reciclável, forçando o cidadão que não tem esse serviço a ter de levar os seus resíduos pessoalmente a pontos de coleta de iniciativas privadas. Muitas vezes estando a quilômetros de distância.

É preciso que haja uma maior cumplicidade entre a sociedade, empresas e órgãos públicos, para que a capital paulista siga sendo exemplo para o Brasil e para o mundo, não apenas no aspecto econômico mas também na forma de tratar o meio ambiente urbano. As gerações atuais devem pensar em novas formas de transformar os problemas ambientais que existem na cidade, lançando a eles um novo olhar, de perspectiva inovadora e sustentável. Somente com a união de todos podemos pensar em um futuro ecologicamente justo para São Paulo.