Encontro Catalisador

Veja um pouco como foi o primeiro dia de evento realizado no CRC

No dia 26 de novembro o CRC promoveu junto ao CETRANS, com apoio cultural do Fronteiras do Pensamento e institucional da Fundação Lehmann, o primeiro dia de palestra e mesa redonda que abordou a criação transdisciplinar do conhecimento, assim como sua aplicação na educação. O evento, que teve dois encontros, foi denominado “Encontro Catalisador: educação, transdisciplinaridade e o pensar” e recebeu palestrantes de áreas diversas do conhecimento.

No primeiro dia do encontro, a consultora transdisciplinar e membro ativo do CETRANS Maria de Mello, o Arquiteto e mestre em filosofia Sergio Bolliger, o filósofo Gustavo Pinto e o Diretor de Pesquisa Educacional na Middlesex University de Londres, Paul Gibbs, palestraram para um auditório cheio de interessados em aprender sobre o conhecimento múltiplo e transdisciplinar.

 

Transdisciplinaridade

Maria de Mello abriu a noite falando sobre o surgimento do termo Transdisciplinaridade e como ele é recente. Segundo ela, muitos de seus princípios podem ser encontrados em imagens na literatura, nas artes e no patrimônio cultural das civilizações. A palestrante explicou que o pensamento transdisciplinar acontece no que ela denomina os quatro modelos estruturantes do pensamento ocidental, que são o Mito, a Filosofia a Religião e a Ciência. Com o avanço desta última, esses modelos passaram a ser considerados excludentes, sendo o método da transdisciplinaridade uma nova mudança paradigmática, vindo a ser considerada como o quinto modelo estruturante do pensamento. O papel da Transdisciplinaridade seria articular os quatro modelos anteriores, apresentando relação entre objetividade e subjetividade, religando os saberes produzidos pelas disciplinas e ampliando o modo do qual nos aproximamos do conhecimento.

Para Maria de Mello, a transdisciplinaridade pode ajudar a esclarecer os níveis de realidade nos quais a sociedade vive. Segundo ela “desfrutamos do avanço da ciência, porém temos em tempo real o grande sofrimento da sociedade causado pela angústia e violência”. A Transdisciplinaridade contribuiria no entendimento dessas evidências, pois numa aproximação transdisciplinar o que urge é questionamento acerca do sentido, pondo em questão o que entendemos por humanismo, linguagem e o pensar. Isso facilitaria entender as capacidades cognitivas que nos caracterizam como humanos no permitindo de nos aproximar da humanidade, criando uma inteligência coletiva.

O que é chamado o Pensar?

Provocando o público presente a refletir sobre as raízes do pensamento -como e de onde ele surge -, Sergio Bolliger introduziu sua fala expondo as ideias concebidas pelo filósofo alemão, Martin Heidegger no encontro. Segundo ele, Heidegger afirmava a seguinte frase: “nós não sabemos o que é pensar, pela seguinte razão, nós não pensamos ainda”, comentou Bolliger, parafraseando Heidegger. Esse comentário se referia ao estilo ocidental de fundar e administrar pensamentos elaborados. De acordo com suas ideias, os humanos têm a linguagem e a faculdade da razão, mas até mesmo a ciência não pensa.

Para o palestrante, essas afirmações são influência do pensamento do mestre de Heidegger, o também filósofo alemão, Edmund Husserl. O pensamento que mestre e discípulo compartilhavam, era de que existia uma incompletude relativa aos conceitos fundamentais e que as ciências não pensam os pressupostos que repousam sobre os métodos e resultados. Usando um exemplo prático, “A biologia trata dos seres vivos mas não sabe sobre o que repousa a própria vida” explicou Sérgio, complementando que o pensar nas ciências seria apenas como partir de pressupostos impensados. Sergio Bolliger instigou a todos em sua palestra a refletir sobre as origens de todos os conceitos já fundamentados e como é importante pensar a origem de seu significado para colocar em prática uma transdisciplinaridade mais sólida.

Pensamento chinês, a busca da harmonia dos diferentes

Remontando episódios da história chinesa e citando contos da cultura oriental, o filósofo e monge budista Gustavo Pinto mostrou a todos os benefícios do pensamento harmonioso para compreender a transdisciplinaridade. Começou parafraseando o filósofo taoísta Chuang Tzu, com a passagem que dizia: “Sonhei que era uma borboleta, e quando acordei vi que era um homem. Agora não sei se sou um homem que sonhou ser borboleta, ou se sou uma borboleta que sonha ser um homem”. Relacionando com essa frase, Gustavo explicou sobre como o pensamento oriental traz para o âmbito da realidade coisas que são do universo lendário. Um exemplo desses é o conto em que houve o encontro entre Confúcio e Lao Tsé, dois filósofos chineses de vertentes filosóficas distintas que debateram sobre suas diferenças filosóficas de forma harmoniosa.

Comparando a dimensão do mundo como conhecemos, com a visão que a cultura milenar oriental tem do que é o pensar, Gustavo Pinto mostrou a todos os presentes aspectos existentes nas duas culturas e como elas podem harmonizar-se. Tanto no oriente, quanto no ocidente faz-se a reflexão sobre qual a origem da vida, do pensamento e de como conciliar os diferentes. Ao mostrar características do pensamento oriental, o palestrante deu a oportunidade dos presentes em comparar o que é a Transdisciplinaridade no ocidente com o que se imagina por pensamento transdisciplinar no oriente.

 

Pedagogia Transdisciplinar, Heidegger, Zisi, Nicolescu e Foucault

Com vasta experiência no ensino transdisciplinar, tendo orientado mais de 30 doutorandos profissionais transdisciplinares, Paul Gibbs defende a ideia de que ensinar é um diálogo, “no meu país, as melhores universidades têm diálogo” reforçou o palestrante. Além de explicar os processos para uma educação transdisciplinar, comentou sobre os três tipos de pensamentos existentes de acordo com Martin Heidegger: O pensamento calculista, que se aproxima mais da racionalidade, onde segundo Gibbs é onde “nós podemos identificar o curso das coisas e mudá-lo”, disse ele. No pensamento meditativo, Gibbs contraria o senso comum sobre o que é meditação reforçando a ideia de que ele não nos tira da realidade, mas exatamente o contrário. Para ele, o pensamento meditativo nos deixa mais focado na vida real. Assim como o pensamento poético, que nos aproxima mais do que seria nosso ser criativo e artístico.

Buscando mostrar como a Transdisciplinaridade deve ser tratada em processos pedagógicos, o professor também falou sobre pensamentos relacionados ao filósofo chinês Zisi, do físico romeno Basarab Nicolescu, e do poeta francês Michel Foucault. Um dos pontos defendidos por Gibbs foi a necessidade de transformar o nosso sistema educacional em Transdisciplinar. Citando Heidegger, ele explicou a relação entre professor e aluno, reforçando a ideia de que ela não pode ser um veículo para uma educação autoritária, não sendo uma via só, com um ensino sem pensamento crítico, mas sim, essa relação deve ensinar a leitura analítica dos eventos.