O papel da logística na cidade contemporânea

Palestrantes falam sobre o planejamento de entregas na cidade

O comportamento do consumo tem sofrido profundas alterações na sociedade contemporânea, com o avanço de novas tecnologias e possibilidades do comércio online. Com essa transformação, surgem novos desafios e demandas, talvez principalmente na logística da distribuição relacionada aos serviços e produtos vendidos ou trocados online.

Considerando esse pensamento o Esquina: Conversa sobre cidades, em parceria com o Centro Ruth Cardoso, realizou no último dia 6 de novembro de 2018, o evento “A nova Logística”.

 

Na ocasião estiveram presente Paulo Oliveira, pesquisador da FGV e sócio da Scambo Consultoria; Thiago Cordeiro, CEO da startup GoodStorage e Vinicius Pessin, fundador do site euentrego.com. Os palestrantes falaram sobre suas inovações no ramo de entregas, armazenagem e sobre o futuro da logística de transportes.

 

Novas demandas e entregas

 

A favor de uma logística compartilhada, que una órgãos públicos, universidades e cidadãos, Paulo Oliveira falou de alguns problemas existentes na hora de pensar os métodos de entrega. Segundo ele, a principal dificuldade de se planejar uma estratégia para esses fins está na falta de comunicação entre as partes envolvidas. Para agilizar as vias que surgem a partir da lógica de compartilhamento de trajetos, é preciso entender que as instituições da cidade estão conectadas, portanto devem funcionar como uma unidade: “É você entender a cidade como um órgão único” ressaltou o pesquisador. Além disso, lembrou de sua experiência como consultor do Banco Mundial, onde pôde entender melhor a importância da ligação entre as diferentes partes envolvidas em um processo de entrega de qualquer carga.

 

Ele chamou a atenção também para a percepção existente nos órgãos públicos, de que a carga é de responsabilidade somente do setor privado, o que na sua opinião, é algo que deveria ser pensado em conjunto por ambas as partes. O consumo de mercadorias gera lucro e ajuda a mover a economia de uma cidade, portanto é necessário idealizar um setor público que dê uma atenção maior às necessidades de entrega de cargas. Visando a expansão da cidade como um todo, é crucial que haja essa interlocução e debates entre todos os órgãos, “Somente os cálculos de logística não irão resolver os nossos problemas de entrega, é necessário debater e somar” afirmou o pesquisador.

 

Surgem algumas soluções

Uma das soluções abordadas no evento foi o selfstorage, opção de armazenamento que surgiu nos Estados Unidos na década de 1960, que consiste em aproximar do usuário espaços de diversos tamanhos para locação. A forma de funcionamento desses serviços de armazenamento trouxe mudanças no pensamento urbano, mudando a organização de imóveis que serviam como depósito de mercadorias. Apresentando uma solução estratégica de armazenagem das empresas, Thiago Cordeiro falou sobre a eficiência de guardar as mercadorias próximas aos seus clientes e como isso solucionou um grande problema na logística de entrega.

 

Com o estoque mais próximo do cliente, além de aumentar a velocidade da realização do serviço, há diminuição na necessidade de possuir um local, certas vezes maior que o necessário. “Antes as empresas possuíam um único local de depósito, que muitas vezes, estavam distante do local de entrega” pontuou Thiago. Essa utilização mais inteligente dos espaços aumentou a produtividade do metro quadrado do lugar alugado. Além disso aproximou vendedor e cliente, satisfazendo uma demanda cada vez mais criteriosa deste último, dado o surgimento de serviços cada vez mais ágeis no mercado. “Nesse momento há a tecnologia, que ocasiona mudanças rápidas, atraindo os clientes e mudando a lógica do capital” enfatizou o CEO da Goodstorage. Todo esse ocorrido forçou as empresas existentes, que ainda utilizavam métodos tradicionais, a se adaptarem e pensarem novos meios de entrega. “O local de armazenamento é fundamental para essa nova dinâmica empresarial” concluiu Thiago Cordeiro.

 

Do armazenamento ao delivery

Apresentando o método de trabalho de entregas online, o fundador do site euentrego.com, Vinicius Pessin, contou sobre a contribuição de sua plataforma para a economia colaborativa na sociedade. A expressão utilizada para esse tipo de serviço é crowdshipping, utilizada pela primeira vez na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. Seu site é uma proposta de crowdshipping, isto é, conecta pessoas que não são profissionais de logística (mas usam diferentes modais de transporte na vida diária) com pessoas que necessitam de serviços de entrega. A ideia é que os “entregadores” consigam prestar um serviço de logística dentro de seus trajetos cotidianos, aproveitando tempo ou espaço que estariam, de outra forma, ociosos.

 

Para Vinícius, essa nova logística também deve atender a um propósito, e no caso do site criado por ele, é gerar trabalho e renda para pessoas que estão desempregadas: “É muito legal você gerar trabalho e dar uma contribuição para pessoas que estavam fora do mercado” destacou Vinicius. A outra contribuição ressaltada foi a diminuição de caminhões e veículos de entrega nas ruas, ajudando no tráfego urbano e o meio ambiente. O espaço criado a partir desses novos métodos possibilitou a aproximação junto aos grandes varejistas e redes de e-commerce, que começam a entender a necessidade de revisar o modelo tradicional. Hoje seu site atende grandes lojas de varejo e gera renda para diversas pessoas.

 

O ambiente urbano atual está em constante mudança, obrigando os métodos tradicionais a se adaptarem a essa transformação digital dos serviços. Essa evolução da cidade e seus meios de entrega, fundamentado a partir das tecnologias, há muito tempo deixou de ser um futuro próximo é já se tornou uma realidade. Cabe às empresas, órgãos públicos e cidadãos sintonizarem o diálogo sobre o transporte de cargas no meio urbano, facilitando o fluxo da cidade.