Fascismo: Debatendo para entender

Lançamento de livro e Bate-Papo sobre o assunto

Com a popularização do uso do termo fascismo nas discussões políticas do país, o Centro Ruth Cardoso sentiu necessidade de organizar, em parceria com a Editora Planeta, um evento para lançar o livro de Madeleine Albright intitulado Fascismo: Um Alerta, recém traduzido para o português. Foi esse o acontecimento, ocorrido dia 25 de outubro de 2018, usado para discutir tal conceito a fundo. Para aquecer e enriquecer o debate foram convidados para compor uma mesa redonda o jornalista Denis Burgierman, do Nexo Jornal, a Doutora em História Social, Professora Maria Luiza Carneiro, e o Doutor em História Econômica, Professor Vinícius Müller.

Madeleine Albright foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária de Estado dos Estados Unidos, durante a gestão de Bill Clinton. Nascida na Tchecoslováquia em uma família judaica, precisou refugiar-se do nazismo da Segunda Guerra Mundial ainda na infância, primeiramente no Reino Unido e posteriormente nos EUA, país onde se estabeleceu definitivamente. Filha do diplomata Josef Korbel, Albright trabalhou e estudou, no mestrado e no doutorado, dentro da política, sendo uma fomentadora de discussões e agregadora de figuras políticas notórias. Essa vivência deu credibilidade para Madeleine falar com propriedade sobre fenômenos políticos Norte Americanos e também globais. Em seu livro, lança luz sobre as fissuras que governos autoritários podem causar em democracias, alertando para o perigo de irromperem em fascismos que, de acordo com Primo Levi – citado pela autora –, podem ocorrer a qualquer momento, dadas certas condições.

A mesa redonda contou com três perspectivas distintas e complementares que contribuiram para o entendimento mais aprofundado de um tema tão complexo como esse. A primeira fala, de Burgierman, focou no momento político presente do Brasil, identificando, a partir dos pontos citados pela autora – quase um “checklist de alerta” – quão perto podemos efetivamente estar de um certo tipo de fascismo. Sua retórica mais incisiva também deve-se às suas raízes, sendo ele igualmente filho da tradição judaica. Em seguida a Professora Carneiro reforçou a perspectiva histórica trazida pelo livro, chamando atenção para os usos indevidos que certas palavras têm ganhado nos últimos tempos, justificando o que entende como uma massificação incorreta do termo “fascismo”. Por fim, o Professor Müller trouxe uma perspectiva histórica brasileira, fazendo um paralelo entre as Eras Vargas e os conceitos e momentos históricos citados por Albright.

Os agentes causadores

Um governo autoritário não se estabelece de uma hora para outra: o apoio de grande parte da população é necessário para legitimá-lo. Muito se discute, então, sobre os motivos que levam ao respaldo de um líder que futuramente retira os direitos democráticos e civis de seu povo.

Para Denis Burgierman, a lógica do pensamento fascista extrapola a sua dimensão histórica. Ele explica que é necessário enxergar o substantivo, mais que o adjetivo, ou seja, o fascismo como um fenômeno que assume diferentes formatos ao longo dos tempos e que não segue, necessariamente, uma mesma receita teórica. Mesmo assumindo diferentes formatos conforme sobe ao poder em tempos e países diversos, existem certas características básicas que o marcam, como um sentimento de nacionalismo exacerbado. A defesa de uma pátria suprema, acima de tudo e todos, pode fomentar uma percepção de unidade no povo, porém exclui tudo que a ele supostamente “não pertence”, de forma muitas vezes radical e violenta.

Um dos pontos na leitura do livro que chamou a atenção de Burgierman diz respeito ao ódio, a energia motivadora das ondas fascistas, como um ressentimento compartilhado: “O fascismo é um risco muito grande em momentos de raiva, tristeza, indignação e medo”. O fascismo cresce em lugares onde o povo está sofrendo – com uma derrota, com uma crise econômica, com fome ou doenças -, e quando as alternativas da democracia liberal parecem ter falhado. “Isso torna o Brasil um prato cheio” acrescentou Denis. 

 

Confusão no ponto de vista

Com o destaque que o termo recebeu nos últimos tempos e certa confusão acerca da complexidade que constitui o fenômeno, algumas pessoas passaram a dizer que fascismo e nazismo seriam regimes totalitários de esquerda. Vinicius Müller, especialista em Economia, falou sobre sua percepção do que faz as pessoas se confundirem e causarem essa contradição, resgatando, para isso, um pouco do passado histórico do Brasil.

Esse resgate foi feito usando exemplos do período em que Getúlio Vargas esteve no poder. Embora hoje em dia o presidente seja visto como um esquerdista, devido aos avanços que promoveu como a liberação do voto feminino e a elaboração da CLT, Vinicius atentou para atitudes que o aproximavam de regimes totalitários. O presidente, por exemplo, suspendeu, em 1935 e com um discurso de perseguição aos comunistas, a Constituição de 1934 que, segundo o professor, tinha bastante características democráticas. Essa atitude fez com que grupos de inspiração fascista, como os Integralistas, buscassem aproximação com Vargas, por acharem que ele os representava. Para completar, durante a Segunda Guerra, um então Ministro fez uma declaração pública sugerindo que se pensasse sobre a “Germanização do Brasil”, uma fala que fez clara ligação com o regime nazista. Conclui-se, com isso, que o populismo hoje atribuído à Vargas carregou, em seu momento histórico, elementos simpáticos ao fascismo.

Essa ambivalência de Vargas, ora ditador, ora populista, pode ser uma origem da confusão brasileira acerca da inclinação ideológica dos regimes totalitários. Afinal, como pode alguém que hoje é visto como um “herói da esquerda”, chama Vinicius, ser, na época, quem tomou diversas decisões, durante seu mandato ditatorial, entendidas como fascistas?  “Não acho que o fascismo seja de esquerda”, diz o professor, “mas se o fascismo é método (…), se o fascismo não é uma definição de conteúdo, então ele pode ser método da esquerda também”.

Ainda trazendo a perspectiva histórica, Müller identifica a fissura de onde nasce o nazifascismo. No final da Primeira Guerra Mundial, quando os países estão pensando qual a proposta que pode liderar uma reconstrução global, os Estados Unidos sugerem o seu modelo de democracia liberal, ao qual a França recusa, na tentativa de estabelecer-se como “dona” da Europa, como o modelo que deveria inspirar seu continente. Por algum motivo, a França não tem forças para impor seus ideais ao restante dos países e, pela ausência de um Estados Unidos recolhido em seu próprio continente e na amargura dos países humilhados pelo Tratado de Versailles, surge tal fissura.

A indisposição de abrir o seu país para entrada de estrangeiros e a visão romântica do mito fundador são outras características típicas do fascismo. Do ponto de vista dessa lógica, a história dos países é deturpada, manchada por elementos que não representam os ideais originários da nação –  elementos que não se adequam ao discurso nacionalista. “Por isso, o fascista não gosta de imigrante e estrangeiro, é antissemita e existe sempre o discurso do seu país acima de tudo” pontuou Vinicius, usando como exemplo o discurso da Alemanha nazista, que tinha como propaganda o slogan “Deutschland Uber Alles”, em português, “Alemanha acima de tudo”.

Datas diferentes, mesmas facetas

O conceito atual do fascismo difere do conceito histórico: pensá-lo nos dias de hoje não é o mesmo que entendê-lo no século 20. “Aquele teve seus personagens e propostas, um regime com paradigmas fascistas e imitados por outros países. O que encontramos hoje é a persistência de alguns elementos” explicou Maria Luiza Carneiro. Ela ressaltou que a escritora, Madeleine Albright, foi muito oportuna no título do livro, por tratar esse fenômeno como um alerta, uma atenção que indica as fragilidades que existem no sistema democrático: “A escritora fala que fissuras existentes em uma democracia podem levar ao fascismo”, lembrou.

Essa comparação do fascismo histórico com as diversas políticas e posturas dos líderes atuais, ressalta a importância de se pensar o papel dos educadores e como eles devem estar atentos a um possível cenário autoritário ou totalitário. A professora lembrou da importância de conscientizar os jovens sobre os riscos presentes em discursos e no reconhecimento dos termos usados. Nenhum líder fascista, atualmente, chega ao poder se declarando como um, aí está um alerta, pois muitas vezes o conteúdo de seu discurso deve ser identificado nas entrelinhas e na simbologia dos argumentos usados.

Para isso, Madeleine Albright usou como exemplo alguns líderes de antigamente e da atualidade, comparando-os e mostrando características semelhantes entre eles. “Esse passear que ela faz entre alguns países e lideranças, nos alerta para esse populismo e xenofobia exacerbadas”, comentou a historiadora. Carneiro usou a expressão citada pela escritora, chamando essas comparações de líderes de “círculo dos déspotas”.

Para Maria Luiza, existem três vieses fascistas que merecem destaque. O primeiro viés é esquerdista, no qual fala-se na ditadura dos despossuídos, que trabalha o discurso de ódio de classes, voltado para a parte mais pobre da população. Cria-se a cultura de que você deva estar contra aquele que, supostamente, explora a sua mão de obra e sua pobreza. O segundo refere-se ao fascismo de direita. Albright fala da formatação que ele causa no Estado, deixando-o mais corporativo e com caráter autoritário. O terceiro viés, que seria dos monarquistas, é comparado mais ao nazismo e ao fascismo histórico, nem está a direita ou esquerda mas sim no centro, e é contra regimes de ideologia comunista e inimigo do mercado liberal. Ambos são regimes reformistas que, em seu discurso protecionista, se utilizando do medo e insegurança popular, dizem ter a solução para salvar a nação de alguma ameaça. Para isso são utilizados elementos mobilizadores na retórica fascista, como discursos repletos de machismo, nacionalismo e apelo populista.

O Brasil de hoje e a conscientização

O país vive uma onda de insatisfação com o sistema político existente. A falta de educação adequada, que pudesse conscientizar a população dos sinais de ascensão do fascismo, fez com que o medo e a insegurança tomassem conta da mentalidade coletiva, transformando o país em um local propenso a uma guinada ao fascismo.

Um dos presentes levantou a seguinte questão: se estariam os intelectuais se distanciando da população mais pobre e, por conta disso, pessoas da “periferia” estariam elegendo determinado candidato com potencial de prejudicá-las no futuro. Em resposta, Vinicius Müller falou sobre a multidimensionalidade do indivíduo e as razões que levam cada um a fazer suas escolhas. Para todas as pessoas, inclusive na periferia, a realidade da vida não é unidimensional, existindo uma soma de várias experiências que levaram cada um a escolher determinada pessoa para governar. Segundo ele “É necessário discutir o candidato e não o seu eleitor”, caso esse candidato tenha traços fascistas em seu perfil, é necessário entender como esse discurso seduziu as pessoas que, supostamente, seriam da classe mais desfavorecida caso fosse eleito.

Cabe aqui um último esclarecimento, acerca das proximidades e confusões que podem surgir nas comparações entre fascismo, nazismo, comunismo e capitalismo, que veio a partir de uma pergunta do público presente. Maria Luiza ofereceu a resposta destacada: “Nós temos um totalitarismo, pensando naqueles conceitos de controle total de uma população. Aí você tem o fascismo e tem o nazismo, dizemos até que ambos são fascismos, eu atualmente uso a palavra nazifascismo (…) E quando eu penso em capitalismo, enquanto um sistema econômico”. A distinção deve estar no que é um regime, o que é uma ideologia e o que é um sistema econômico, portanto. Ideologias podem ser o comunismo, o anarquismo, o socialismo, a democracia – e esses são os regimes. Trazendo o exemplo na ocasião citado, do ditador chileno Augusto Pinochet, pode-se ver que regimes autoritários assumem configurações diversas. Nesse caso, um regime autoritário ditatorial incorporou uma postura neoliberal em sua economia.

Um método para impor ideologias

Transcendendo as diretrizes políticas, um governo fascista se impõe autoritariamente sem depender de sistema econômico específico para se estabelecer. Tanto um populismo com um viés de esquerda, quanto um de direita, podem se transformar em movimentos com elementos fascistas. A evolução de tais movimentos leva a regimes autoritários e à imponência do Estado sobre os direitos civis e de mercado.

É importante entender o fascismo como um fenômeno de massa, isto é, que recebe o apoio da população. Identificar características e sinais típicos é a melhor forma de evitar que ele se instale em regimes democráticos – consolidados ou em construção. Em tempos obscuros e turbulentos, a clara distinção entre regimes, sistemas econômicos e ideologias, se faz útil como uma boa ferramenta anti-totalitarismos. Perceber esse fenômeno como uma forma de tomar e exercer o poder, um método para impor um viés ideológico específico, é um passo importante para a sua prevenção. Por isso o papel da educação na conscientização da população é fundamental para mantê-la alerta às tendências fascistas que aparecem em nossa sociedade.

Veja AQUI o debate completo desse dia. Abaixo você confere uma entrevista exclusiva com os palestrantes.