A vez do pedestre

Esquina: Conversa sobre cidades e CRC sediam evento sobre o tema

 

Com o objetivo de levantar questões sobre o papel do pedestre no meio urbano, o Esquina, parceiro do Centro Ruth Cardoso, organizou um debate para pensar os rumos do transporte nas grandes cidades, a partir da perspectiva do pedestre. Para isso, foram convidados especialistas em planejamento urbano e mobilidade a fim de conversar sobre a locomoção a pé nas metrópoles e suas necessidades.

Dentre eles estavam José Renato Melhem, criador do programa Passeio Livre de Calçadas e atualmente colaborador do programa Calçada Nova da Prefeitura de São Paulo, João Previz Rodrigues, coordenador do Departamento de Planejamento de Modos Ativos da CET, Mauro Calliari, mestre em urbanismo e pesquisador de espaços públicos e caminhabilidade na FAU-USP, Flávio Soares do Ciclocidade, Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo e Meli Malatesta, ativista e doutora em mobilidade ativa.

 

A importância das calçadas

 

José Renato Melhem falou sobre projetos da Prefeitura de São Paulo para a mobilidade a pé. Ele explicou como funciona o programa Passeio Livre da cidade de São Paulo, ponto inicial para o plano que está em vigência no momento, o Calçada Nova, também comentado na ocasião. Ele defendeu que a calçada é fundamental por várias questões, como arborização, espaço para convívio social e acessibilidade. Sua fala foi importante para explicar partes do processo de planejamento dos espaços de ocupação do pedestre na rua. “Pode mudar a gestão, mas toda prefeitura tem um norte e um projeto a ser executado”, comentou ele em relação às mudanças na prefeitura da cidade. Também explicou o conceito do Plano Emergencial de Calçadas, que é a georreferenciação dos principais pontos de uso intenso de pedestres da cidade: “De maneira grosseira, você padronizando 8% da cidade você atinge 80% dos deslocamentos”, pontuou.

João Previz apresentou alguns programas do CET sobre o tema. Para ele, primeiro construímos os carros e estradas para somente depois nos adaptarmos como pedestre. Em sua fala disse que “O pedestre, que é o primeiro da pirâmide, foi o último a ser pensado”. O fato de toda pessoa ser um pedestre em algum momento obriga a sociedade a pensar, de fato, qual o seu papel no espaço urbano. O desenho da cidade influencia no comportamento do coletivo. Por isso, o CET está trabalhando em um sistema de banco de dados da malha de circulação de pedestres, para entender melhor a locomoção a pé e montar um plano de melhoria.

 

Para João, é importante constatar que já há muito sendo feito e talvez seja o momento ideal para discussões como essa. A maneira de pensar a mobilidade na cidade mudou: passamos do paradigma do carro como o objeto de status para o reconhecimento do valor do transporte mais sustentável, do transporte público e coletivo. Concluindo sua fala, João defendeu que o Brasil deve pensar uma cidade para o pedestre, adequando sua legislação e reforçando o compromisso da prefeitura com os projetos já iniciados, além de aplicar lei nas áreas de propriedade privada.

 

Todos somos pedestres

Flavio Soares explicou que a relação do ciclista com a mobilidade a pé é simples, afinal, segundo suas palavras, “Todos somos pedestres”. Ele coordena um projeto de segurança viária, junto com Cidadeapé – Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo. Flávio criticou uma falta de visão na rua que não deixa clara a união entre ciclistas, pedestres e pessoas que usam transporte público. Visão essa necessária para buscar uma cidade com mobilidade ativa. Pensando nisso, ele lançou o Painel de Mobilidade Ativa, de sistematização de dados sobre lesões e mortes no trânsito, cujos dados são levantados via lei de acesso à informação. Um dos dados apresentados, segundo sua pesquisa, mostra que nos locais onde malhas cicloviárias foram implantadas houve diminuição de mortes por acidentes.

 

Fazendo um resumo de apresentações que envolvem o universo da mobilidade a pé, Meli Malatesta salientou que a mobilidade não motorizada tem um raio de extensão menor no planejamento da cidade. Por conta disso, os planejamentos frequentemente ignorama ligação entre os municípios que compõem a região metropolitana, mesmo sendo trajetos recorrentes do cidadão. Um exemplo útil para mudar isso seria mudar o planejamento urbano na divisa das cidades. Isso pois a linha de ação nas regiões de grandes centros urbanos têm trajetos e viagens a pé que transcendem o limite metropolitano.

 

Além de defender mudanças mais significativas na estrutura das ruas e do espaço de locomoção do pedestre, a ativista espera que as políticas para a mobilidade a pé não se contentem somente com aumentar o tempo de travessia em 20%: “Nao adianta só pensar no aumento do tempo de travessia, pois aumentar 20% de pouco é pouco” pontuou Meli. Ela também concluiu que diminuir o tempo de espera de quem vai a pé seria o ideal nesse caso. Segundo seu pensamento, longos tempos de espera por conta do excesso de automóveis, afetam o trajeto de quem decidiu por se mover a pé Ela apoia uma participação mais ativa da sociedade, cobrando mais fiscalização e respeito pelo pedestre.

 

Para saber mais do que foi debatido, você pode assistir o vídeo que foi gravado durante o evento.