O desafio da cidade: Reflexões sobre o antropólogo urbano

RUTH C. L. CARDOSO

Talvez o melhor título para este livro fosse: “Os desafiados pela cidade”. Na verdade, a leitura evoca o desconforto de seus autores diante de seus informantes e mostra, de modo explícito ou dissimulado, uma inquietação ética e política.

A primeira impressão de quem termina de ler o “Desafio da Cidade” é a de que está aberta a discussão e esta é uma qualidade inegável.

O tom geral é polêmico, quer porque o livro trata de temas pouco convencionais no campo da antropologia, quer pelo modo como enfrenta os problemas resultantes da relação entre o investigador e seus entrevistados. Estamos em um bom momento para retomar estas discussões, pois, depois de um longo período de descrédito, as técnicas de pesquisa que caracterizam o trabalho antropológico voltam a ser largamente utilizadas.

Via de regra, as entrevistas e a convivência com os informantes aparecem como uma panacéia capaz de salvar de críticas as ciências sociais acusadas de formalismo e quantitatismo. O desejo de uma interpretação globalizante, nem sempre possível dentro dos cânones científicos convencionais, levou à demonstração de um certo desencanto com relação aos instrumentos de coleta de dados amplamente utilizados pelas ciências sociais. Entretanto, em lugar de se passar por um crivo crítico, os esquemas interpretativos e os métodos de análise, rejeitou-se o instrumento de coleta como responsável pela fragmentação da informação. E, como conseqüência, assistimos a um renovado interesse pela aplicação de técnicas ditas antropológicas, mas sem a necessária reflexão sobre suas limitações e dificuldades.

Na maioria dos trabalhos que têm sido publicados, não há uma reflexão séria sobre as condições do trabalho de campo e nem dos critérios de análise do material. Substitui-se a aridez dos cálculos estatísticos pelo exotismo das frases de gosto popular que justificam as interpretações.

Os desafiados pela cidade sentiram estas falhas e procuraram, cada um à sua maneira, encontrar respostas. A linha condutora de todos os artigos é a busca da legitimidade e da importância da pesquisa qualitativa nas cidades e, mais especificamente, na cidade em que vivemos.

Gilberto Velho, introduzindo os outros trabalhos, levanta a discussão sobre as condições de possibilidade de uma antropologia do cotidiano e discute, com pertinência, a necessidade de relativizar as noções correntes de familiaridade e de distanciamento cultural. Mostra, ainda, que o antropólogo “precisa manter uma atitude de estranhamento diante do que se passa, não só a sua volta como com ele mesmo” . .., e, para isto é treinado e preparado, embora este processo de socialização nem sempre esteja claro para os que dele participam, quer como discípulos quer como mestres” (p. 18 e 19).

Colocar o problema nestes termos é um passo importante para responder à tendência atual de ver no pesquisador apenas o porta-voz de seus entrevistados que, em nome da ciência, reafirma indefinidamente modelos de interpretação, usando, para isto, fragmentos de discurso. A formação do pesquisador deve supor a dúvida sistemática e o respeito à totalidade das informações. O antropólogo, treinado para “estranhar o mundo que o rodeia, está preparado para ver o que há de arbitrário e de ambíguo nas situações sociais. Por isso mesmo, mais do que dar a palavra aos informantes, ele deve tomá-la, para colocar questões novas e buscar explicações para além dos modelos conscientes.

Não acredito na lucidez e objetividade dos cientistas, mas aceito que a função do conhecimento é ir além do “bom senso”. É para conseguir isto que o antropólogo aprende a ser, ele próprio, um instrumento de sua pesquisa. O processo de comunicação que se estabelece através da observação controlada, mas participante, capacita o investigador a desvendar os sentidos ambíguos que estão nos discursos recolhidos pelo gravador e as incongruências das práticas cotidianas.

Por ser o campo da antropologia urbana um território que ainda está sendo demarcado, a reflexão sobre as condições deste trabalho tem que ser permanente. Os compromissos éticos com os grupos estuados, por um lado e, por outro, as limitações do pesquisador que trabalha sem se desligar de seus outros papéis sociais repõe, continuamente, a inquietação quanto ao valor da pesquisa e sua originalidade.

Esta coletânea constitui uma contribuição oportuna a este debate. Colocados diante de situações bastante diversas, jovens antropólogos procuraram dar seu testemunho de como enfrentaram os deveres e os aborrecimentos do trabalho de investigação e como se movimentaram dentro da camisa de força que é o papel de cientista em situações que exigem definições e lealdades.

Pesquisando religiões, grupos de poetas, favelados, prisioneiros, ou analisando as características das comunidades formadas pelos arquitetos ou pelos antropólogos 2; os vários autores convergem ao expor o lado político específico deste tipo de observação. E estas dificuldades não são apresentadas apenas pelo ângulo tradicional que se preocupa com a aceitação do pesquisador pelo grupo, mas, também, pelo lado pouco discutido dos dramas que envolvem os antropólogos. São apresentadas as vantagens e desvantagens que traz para a pesquisadora sua condição feminina, ou a descrença para os que estudam as religiões.

Sem dúvida, estes depoimentos, por sua abertura e diversidade, constituem uma contribuição importante para o debate metodológico. Entretanto, é preciso ressaltar que não é só nesta perspectiva que os trabalhos apresentados têm interesse. Todos trazem informações e interpretações novas para seus campos específicos, mas, dada a diversidade de assuntos, é difícil fazer justiça à originalidade nos limites de uma resenha. Certamente, “O desafio da cidade” é um livro oportuno e, por isso, deverá ser o ponto de partida para uma fecunda discussão das ambições e limitações de uma antropologia urbana.