A doença mais antiga do mundo

Palestra do médico e escritor Siddharta Mukherjee no Fronteiras do Pensamento

Estivemos, no último dia 05 de Setembro de 2018, em mais uma conferência do nosso parceiro, Fronteiras do Pensamento – dessa vez para assistir o médico e escritor indiano Siddharta Mukherjee. Mundialmente conhecido por seus livros de divulgação científica da área da medicina, o médico oncologista brindou a platéia com uma perspectiva atualizada sobre o câncer: qual sua origem, os avanços e os desafios dos tratamentos e das abordagens usadas ou em estudo hoje em dia.

Dr. Mukherjee “defende que o câncer não é uma doença, mas muitas, com uma característica fundamental: o crescimento anormal das células. E que é exagero dizer que a guerra contra o câncer está perdida, mas também não é realista afirmar que esta é uma batalha que pode ser completamente vencida”. A base desse pensamento está no entendimento de que o câncer é uma doença extremamente individualizada: cada pessoa pode manifestar o mesmo tipo de câncer de inúmeras maneiras, pois ela altera genes diferentes em cada indivíduo.

O médico apresentou brevemente um panorama histórico do câncer, reforçando que, ao contrário do que o conhecimento popular difunde, ela é uma das mais antigas enfermidades da humanidade, com documentação datando de 2.500 AC. A crença popular, de ser uma “doença moderna”, se deve ao fato de estarmos vivendo mais: conforme vamos curando uma a uma, sobra o câncer.

Para leigos, como nós, que assistimos à fala do médico, alguns pontos chamaram a atenção. Em primeiro lugar, Mukherjee apontou para os avanços tecnológicos que ajudam a detectar precocemente células com potencial cancerígeno. O que ocorre com células cancerígenas: elas perdem o mecanismo, natural do funcionamento do corpo, que avisa quando elas devem parar de crescer e multiplicar. O médico inclusive brincou, perguntando “por quê, quando perdemos uma mão, não cresce outra no lugar? Ou por quê o corpo não produz um sexto dedo, após ter produzido cinco?” – justamente por existir esse mecanismo no nosso organismo, que envia um sinal para que as células interrompam seu crescimento. As novas tecnologias permitem que se identifique as quantidades mais ínfimas das primeiras células cancerígenas que vão morrendo no corpo e, ao morrerem, liberam minúsculas partículas detectáveis. Ocorre que frequentemente o corpo dá conta de identificar essas pequenas mutações e as cura sozinho. Então, essa detecção tão precoce acaba por criar um dilema: é melhor identificarmos o quanto antes e vivermos sob a sombra de, quem sabe, um dia termos um tumor? E se o tumor nunca aparecer? Será que mudaremos a nossa vida, por conta dessa perspectiva? Surgem, então, novos termos como “previvor” – junção de duas palavras “survivor” (sobrevivente) e “previous” (prévio) – que dão vazão a esse sentimento de viver sobre a sombra da dúvida: eu sobrevivo a um câncer que ainda não tive.

Outro ponto interessante da conferência foi a visão radicalmente diferente que o médico propõe: ao invés de olharmos o que há de errado com a pessoa, o corpo que desenvolve o câncer, que tal olharmos para o que há de certo com aqueles que não desenvolvem? Dr. Siddharta disse que teremos boas respostas para essa questão na próxima década, uma vez que estudos já vêm sendo conduzidos com esse intuito. Dentro dessa perspectiva se encaixa outro comentário seu, que questiona a falta de domínio da medicina sobre tratamentos, digamos, “naturais”: um médico consegue receitar um tipo de mecanismo (um remédio) para tratar uma condição, mas não sabe recomendar a dieta adequada a ser seguida, que é outro mecanismo de cura possível. Ambas coisas se resumem a uma mesma função, de prover o organismo debilitado com as moléculas que ele precisa para acelerar sua recuperação.

O terceiro aprendizado que gostaríamos de trazer aqui trata de esclarecer os dois problemas relativos à dificuldade do tratamento completo do câncer. Um problema diz respeito à identidade: a doença vem de dentro do corpo, tão perto da gente que é muito difícil identificar o que é “corpo” e o que é “doença”. O segundo problema é em relação à diversidade. Como mencionamos acima, cada indivíduo expressa a doença de uma maneira particular, pois diferentes genes podem ser alterados em diferentes pessoas. Isso não é uma regra, pois existem pessoas com alterações iguais, mas essa individualização da doença é uma realidade. Então são precisos tratamentos específicos para mutações específicas e, infelizmente, não é raro que indivíduos desenvolvam formas bastante únicas de câncer. Quão mais personalizado um tratamento é, mais caro ele se torna, o que aponta para a necessidade de focarmos esforços na detecção precoce e na perspectiva do que “dá certo”, citada anteriormente.

Ao final do evento, saímos com a impressão positiva de estarmos avançando – não na direção de uma cura universal para o câncer, mas no sentido de um entendimento mais profundo e mais holístico da doença e das nossas possibilidades como seres vivos, organismos em relação com um ambiente complexo e cheio de variáveis e possibilidades.

¹ Retirado da caderneta promocional do Fronteiras do Pensamento, contendo a biografia do conferencista, entregue ao público na entrada do evento.