10 anos sem Ruth Cardoso

Contextualizando o seu legado: AlfaSol

Com o objetivo de levar a alfabetização a lugares onde a leitura e o aprendizado eram de difícil acesso, Dra. Ruth Cardoso deu início ao seu projeto Alfabetização Solidária, a AlfaSol. Criada em 1996 com o intuito de ser uma organização social, sem fins lucrativos e de utilidade pública, a ONG segue o seu caminho realizando ações que incentivam a elevação da escolaridade. Além disso, ela busca ampliar as opções de Educação Profissional para jovens e adultos de comunidades de baixa renda, como por exemplo junto ao sistema EJA (Educação de Jovens e Adultos), modalidade da educação destinada a pessoas  que não concluíram a educação básica.

Os números impressionam e satisfazem os olhos de quem se preocupa com os rumos da educação do país, afinal, já foram quase seis milhões de alunos atendidos em diversas partes do Brasil. Todo o sistema educacional da AlfaSol é feito para que haja o intercâmbio entre educadores e alunos e, para isso, foram capacitados mais de 260 mil educadores desde a sua fundação. Ao todo, cerca de 2.300 municípios já foram atendidos trazendo um reconhecimento positivo em âmbito nacional. As diretrizes da organização levam em consideração a seriedade do projeto, reconhecendo que todo indivíduo detém o direito ao aprendizado ao longo de toda a sua vida.

Entrevistamos a diretora da organização, Maristela Barbara, para saber como estão os projetos da AlfaSol, como se encontra a ONG na atualidade e quais suas perspectivas futuras.

CRC-Criada em 1996 por Dra Ruth Cardoso, a AlfaSol atendeu a mais de 5 milhões de alunos no Brasil, agindo diretamente em áreas vulneráveis. São 22 anos de atuação. Quais as principais mudanças da Organização, de lá pra cá?

MB – Nesses 22 anos fomos ampliando nosso escopo de ação. Após mais de 10 anos com foco intenso na alfabetização de adultos e com resultados importantes na queda do analfabetismo, constatamos alguns entraves para os alfabetizados darem continuidade aos estudos, tais como a falta de oferta da EJA [Educação de Jovens e Adultos], por exemplo. Os municípios não ofereciam vagas para essa modalidade e, quando ofereciam, percebia-se com clareza que correspondia à reprodução da educação regular, no que tange à metodologia e à organização. Esses fatores nos impulsionaram a ampliar nossa ação para além da alfabetização. Foi então que começamos a atuar junto aos municípios no advocacy e na execução da proposta metodológica para uma EJA que respondesse às necessidades do público e ao mesmo tempo fizesse sentido para eles. Ao longo desse tempo, o público da EJA também foi mudando, ficando cada vez mais juvenil. Criamos então a EJA Pro, que é a articulação da EJA com a educação profissional, a fim de estimular os jovens a permanecerem na escola e proporcionar a eles uma inserção mais qualificada no mercado de trabalho. Além dessa proposta de articulação, começamos a atuar fortemente na área de educação profissional de jovens em situação de vulnerabilidade social, desenvolvendo cursos profissionais dentro da concepção de educação integral.

CRC – E o que se manteve constante, como uma marca do legado de sua fundadora?

 

 

MB A crença de que a sociedade civil pode promover a transformação social. O esforço coletivo na produção do conhecimento por meio da reflexão, além do olhar cuidadoso sobre as diferenças. Ainda, se mantiveram constantes o estímulo à construção de hipóteses criativas e inovadoras para os projetos elaborados, pautados na qualidade da discussão e do debate. Algumas premissas e princípios metodológicos seguem desde o início. Tais princípios pautaram e pautam a forma como os projetos e os programas se desenvolvem e tratam desde a articulação com as políticas públicas locais à busca pela sustentabilidade das ações, a atuação em rede, a diversidade, o aprendizado com a prática, até o olhar atento aos sujeitos atendidos pelos programas: o que eles sabem, qual sua experiência de trabalho e sua história de vida. Articula-se a isso o conhecimento e o aprendizado – para que seja significativo – com os sujeitos protagonistas do seu próprio processo de aprendizagem.

CRC Quais as principais conquistas dessa trajetória?

 

MB – São muitas!  Neste tempo todo foi possível chegar a muitos cantinhos do Brasil, e atender pessoas que, de outra maneira, não teriam a possibilidade de retomarem suas trajetórias escolares – foram mais de 5,5 milhões! Foram também quase 300 mil educadores locais que passaram pelas formações, fortalecendo e desenvolvendo suas práticas de ensino nas comunidades. Na Educação de Jovens e Adultos, mais de 100 municípios e 2 mil professores capacitados, fortalecendo a política pública de EJA. E junto com isso, a consolidação de uma metodologia de atuação dos programas pautada nos sujeitos e na realidade de cada local, que considera princípios para a prática educativa, a autonomia do educador, a educação integral e muita problematização. Para isso foi preciso acreditar e convencer o sistema de que, quando o currículo faz sentido para as pessoas, elas permanecem frequentando a escola. “Fazer sentido” não implica apenas em levá-las a compreender conceitos antes considerados “pura teoria” e a se relacionar bem. Implica em valorizar a formação integral do ser humano, que é produtor de bens, de cultura e de conhecimento, de considerar o tra

balho como atividade pela qual ele transforma a natureza e se constrói como sujeito social e histórico, capaz de lidar com os desafios do mundo contemporâneo. Portanto, um currículo que articula conhecimentos gerais aos profissionais respeitando as experiências vividas por cada um dos sujeitos, mais do que fazer com que os educandos permaneçam na escola, leva ao reconhecimento da complexidade da vida social e de que é positivo investir em si mesmo e no outro. Outra conquista foram os cursos de qualificação profissional para jovens socialmente vulneráveis. Além de sensibilizá-los para a vida produtiva, são elementos fundamentais do nosso trabalho elevar sua autoestima e promover o reconhecimento de que há futuro, seja qual for seu lugar de origem. Isso nos traz muita alegria! A criação de nossa tecnologia social foi outra conquista bastante significativa.

CRC – Como você avalia o trabalho de Organizações como a AlfaSol, em um contexto tão delicado como o que vivemos em nosso país, hoje em dia?

MB – Acreditamos que, ao contribuir com o desenvolvimento da autonomia de pessoas, estamos promovendo um salto de qualidade em suas vidas. Quando colaboramos com a autonomia intelectual estamos aprimorando um olhar crítico e, consequentemente, a possibilidade de fazer melhores escolhas. Nas dimensões continentais do Brasil e dos desafios educacionais presentes, a mobilização social da sociedade civil, articulada às políticas públicas e a outros atores, em rede, podem contribuir com a transformação social do país, melhorando a vida de milhões de pessoas. Acreditamos que esse esforço deve continuar, cabendo a cada ator, dos setores público, privado e da sociedade civil, fazer sua parte na responsabilidade pela transformação social.

CRC – Como você enxerga a AlfaSol no futuro e quais as principais metas da Organização daqui pra frente?

MB – Como organização cada vez mais capaz de fazer com que as pessoas se sintam seguras de si e com melhores condições de atuar criativamente na sociedade. Seguir aprendendo sempre, se reinventando a partir dos desafios colocados, e contribuindo de forma permanente na escolarização e na formação profissional de jovens e adultos. Temos também o desafio da formação de jovens a partir das novas tecnologias e inovações, campo que iniciamos e tem sido trilhado com muito êxito. Queremos ampliar ainda mais o atendimento dos jovens e adultos impactados e os municípios atendidos, e ao mesmo tempo poder contribuir no fortalecimento das políticas públicas de EJA, atuando diretamente junto às redes municipais e estaduais de educação, na formação de professores e gestores e no apoio ao desenvolvimento do currículo da EJA. E, é claro, contar com a rede de parceiros, que tem sido fundamental para que as ações possam ser desenvolvidas, alcançando os resultados e os impactos desejados.

 

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