Entendendo o perfil da violência escolar

Pesquisa envolvendo escolas de dois estados é apresentada no Centro Ruth Cardoso

Na tarde de terça-feira, 31/07/18, o Centro Ruth Cardoso sediou a apresentação dos principais resultados da pesquisa e do Programa de Prevenção à Violência nas Escolas, conduzida pela FLACSO Brasil (Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais) em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) . A pesquisa foi realizada nos estados do Ceará e Rio Grande do Sul entre os anos de 2016 e 2017, sendo conduzida pela pesquisadora Miriam Abramovay, com a participação de Ana Paula da Silva e Eleonora Figueiredo, e constatou a extensão dos tipos de violência que ocorrem no ambiente escolar. Para explicar o conteúdo e explorar os diferentes raciocínios advindos do estudo, as pesquisadoras debateram o assunto com os participantes do evento.


As pesquisas estavam incluídas também no programa “O papel da educação para jovens afetados pela violência e outros riscos no Ceará e no Rio Grande do Sul” e ainda contou com o apoio das Secretarias de Educação dos dois estados, além de diretores, professores e alunos do ensino médio. Os estudantes pesquisados tinham entre 13 e 19 anos.

Os diferentes tipos de violência

Um dos pontos que chamou a atenção no estudo foi de que os adolescentes sofrem diversos tipos de violência. As agressões não ficam só na parte física, ficam também no lado psicológico: ofensas e múltiplos tipos de preconceito foram relatados nos dois estados. Nas 50 escolas pesquisadas, sendo 25 em Fortaleza e 25 em Porto Alegre, foram constatados casos de discriminação de gênero, homofobia, racismo, ameaças, agressões verbais e físicas, furtos, roubos e cyberbulling. Este último destaca-se por causar uma reverberação de agressões, que se iniciam no mundo online e passam a ser tratadas no mundo offline, dentro da escola ou nos seus arredores.

Muitos alunos vivem em um ambiente de constante tensão, seja por fragilidade no suporte familiar ou pela violência proveniente das ruas, que muitas vezes invade as salas de aula. Durante a pesquisa houveram diversos relatos de automutilação entre os adolescentes. “Muitas vezes os jovens, para esconder as marcas de se cortarem, obrigam-se a ir de  casaco para a escola em dias muito quentes, como vimos em muitas escolas do Ceará” conta Marina Abramovay, complementando, “Temos relatos dos próprios alunos, de que eles fazem isso para não ter de aguentar a dor psicológica”. A falta de suporte e apoio pode ser um grande potencializador desse comportamento: em Fortaleza, 16% dos jovens dizem não conversar com ninguém quando têm problemas e em Porto Alegre 19% dizem sentir o mesmo. Tristeza, estresse e solidão também foram sentimentos expostos pelos adolescentes em momentos catárticos e difíceis do processo investigativo.

Os professores, a escola e o futuro

Os professores, embora tendo um papel central na educação dos adolescentes dentro das escolas, muitas vezes não são vistos com bons olhos pelos adolescentes. Muitas aulas são consideradas maçantes e repetitivas, levando a uma situação agressiva entre alunos e professores. Os mestres, quando tomam parte da agressão, causam um sentimento de humilhação e impotência entre os jovens. Mesmo assim, existem muitos professores que são considerados amigos, pois conseguem dar o apoio psicológico que falta fora do ambiente escolar.

A maioria dos alunos se queixa da precariedade da infraestrutura dos locais de ensino e pedem escolas mais seguras, agradáveis para estudar e conviver. Muitos dizem que gostariam de passar mais tempo no ambiente escolar, pois não se sentem seguros nas ruas e sabem que a escola é um local para seu próprio desenvolvimento. Outros tantos temem a violência tanto de traficantes quanto de policiais, que são vistos por eles como agressivos e abusivos. Para agravar a situação, atividades laborais que afastam os alunos de ambientes propícios a violência do cotidiano das ruas são de difícil acesso para os jovens, que muitas vezes têm de conciliar o trabalho com a escola. Apesar de todas percepções preocupantes que os dados da pesquisa nos mostram, os estudantes têm otimismo com relação ao futuro, muitos dizem possuem o desejo de se formar em uma faculdade, seguir uma profissão e, alguns ainda, refletem sobre as dificuldades do Brasil e demonstram o desejo de estudar e de trabalhar no exterior.

O programa coletou essas informações por meio de dados retirados de uma pesquisa com 2.647 questionários, com alunos do 1º e 2º ano do ensino médio e teve a participação de professores e diretores das escolas.