Sexismo e o mercado de trabalho

A importância de manter vivo esse debate

           Neste mês o Fronteiras do Pensamento recebeu a escritora francesa e crítica de arte Catherine Millet, que ficou famosa pelo seu livro A vida sexual de Catherine M. Nele, Catherine narra suas aventuras sexuais sem pudor. Na conferência, a escritora foi chamada para falar sobre sua crítica ao #Metoo, movimento feminista que ficou famoso após escândalos que vieram a público nas redes sociais, expondo assédios sexuais no meio artístico. Durante o encontro – em que o Centro Ruth Cardoso esteve presente e você pode conferir AQUI nossa opinião sobre o que foi falado – Millet questionou algumas atitudes e motivações do movimento que levaram a consequências graves. Isso, muitas vezes, fez com que fossem destruídas a imagem e a carreira de muitos homens, diversos artistas entre eles, sem que se tivesse dado voz de defesa para os mesmos. O estopim para ela foi o caso da denúncia de bailarinas contra o coreógrafo Daniel Dobbels, que teria feito comentários sexistas às dançarinas uma década antes, resultando no declínio imediato de sua carreira. E o outro foi a cobertura excessiva dada ao #Metoo pela mídia, que recebeu matéria de capa no jornal Le Monde um dia após uma tragédia que resultou na morte de mais de 300 pessoas no Egito.  Para Millet, não se pode criar uma cultura de ódio para rebater esse problema que atinge as mulheres desde séculos atrás. Esse posicionamento gerou dúvidas de como combater essa cultura sendo justo com os anseios de toda sociedade.

 

Constrangedores são os números

 

Trazendo essa mesma temática para o âmbito empresarial, a edição de junho da revista Harvard Business Review Brasil, dedicou metade de sua publicação para debater o assunto do assédio no local de trabalho. Em uma dessas reportagens, a professora assistente na Oklahoma State University, Heather McLaughlin, trouxe números e estatísticas do Youth Development Study, que entrevistou mais de mil pessoas, entre homens e mulheres, de Minnesota. Uma das constatações da pesquisa foi que, aos 25 anos de idade, uma em cada três mulheres havia sido assediada sexualmente no ambiente laboral. O estudo também mostra que diversos tipos de assédio foram relatados pelas pessoas entrevistadas como, por exemplo, desde olhares maliciosos e comentários sugestivos a tentativas concretas de iniciar uma relação sexual. Cerca de 46% das mulheres entrevistadas com até 31 anos sofreram assédio sexual ano passado.

 

Os números estão expostos para mostrar a realidade dos assédios existentes no ambiente de trabalho. Hoje em dia, a consciência das pessoas em torno desse tema tem mudado gradativamente: não se tem mais, por exemplo, aquele completo ceticismo sobre as acusações das mulheres contra o relacionamento abusivo dos homens. Vide o estereótipo de “vadia louca” criado no século XIX para isolar e humilhar mulheres tidas como “fáceis”, desqualificando seus argumentos. Isso, querendo ou não, só pode ser alcançado com a correta denúncia das ações dos homens que cometem assédio.

 

Não é só papel das mulheres

 

Felizmente, a cultura de “passar o pano” sobre as acusações, como por exemplo, a prática de fazer acordos financeiros, a fim de blindar algum executivo importante da empresa, já vem sendo desconstruída por homens e mulheres no ambiente de trabalho, porém, ainda há muito o que evoluir. O papel do homem nesse contexto não deve se limitar a só estar ciente do que é certo ou o que é errado. Em outra reportagem da revista, o professor de sociologia e estudos de gênero da Stony Brook University, Michael Kimmel, nos mostra que os homens tendem a não perceber o quão errado são os sinais sutis de assédio, como massagear o ombro de uma mulher ou fazer comentários sugestivos – mesmo que sejam em tom de brincadeira. Esse comportamento carrega consigo problemas geracionais, que muitos homens mais velhos, na faixa dos 60 anos, tem dificuldade de corrigir. Um exemplo de raciocínio muito comum nesses casos, é de que certos comportamentos que não eram tidos como errados no passado estão sendo questionados agora, com a evolução do pensamento e do comportamento social.

O silêncio dos homens frente a esses fatores também deve ser combatido, pois é um dever não só para com um determinado grupo da sociedade, e sim para benefício geral de todos. É importante que os homens saibam o seu papel nesse contexto histórico e, na atual conjuntura, o auto-questionamento constante sobre seus comportamentos individuais é de suma importância. Afinal, desprender-se das heranças culturais danosas advindas das gerações passadas é uma das ações que uma sociedade mais evoluída e esclarecida deve ter. Uma sociedade mais igualitária deve ser justa para todas as pessoas a todo momento e não só para um grupo seleto.