A partir de Catherine Millet, reflexões sobre o movimento feminista

 

No último dia 4 de julho de 2018 estive na conferência do Fronteiras do Pensamento com Catherine Millet, crítica de arte e escritora francesa, famosa por seu livro A vida sexual de Catherine M, em que conta suas aventuras sexuais de maneira crua e libertária. Embora seja editora de uma das mais importantes revistas de arte do mundo, a Art Press, Millet foi chamada para abordar um assunto muito mais próximo ao seu âmbito pessoal: seus pensamentos e críticas acerca da campanha feminista #MeToo e suas consequências. A escritora, em conjunto com outras 100 mulheres, dentre elas Catherine Deneuve (atriz), Ingrid Caven (atriz e cantora), Sarah Chiche (escritora e psicanalista) e Catherine Robbe-Grillet (atriz e escritora), assinou um manifesto publicado em janeiro deste ano em um editorial no Jornal Le Monde, em que defende “a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual” e rejeita “um certo feminismo que exprime ódio aos homens”. A partir da fala de Catherine Millet trago aqui algumas reflexões que estendem seu pensamento e buscam contextualizar o movimento feminista na realidade do nosso país.

Propositalmente usei o termo movimento feminista – vamos entendê-lo como movimento, efetivamente: como uma série de circunstâncias e atores sociais impelidos ou guiados por um fluxo de valores e aparatos (como os aparatos midiáticos) que mudam com o tempo. Vamos entendê-lo no fluxo incessante dos acontecimentos. O movimento não para. O que podemos fazer, a partir desse entendimento, é refletir em cima de um recorte do presente e de um porvir futuro. Reflexão que questiona onde queremos verdadeiramente chegar e para onde estamos realmente fluindo, com nossas ações no aqui e agora. Pois cá estão duas realidades nem sempre conectadas – presente e futuro –, e por isso a provocação de Millet se faz tão relevante, ao mostrar que talvez não estejamos criando o futuro desejado, se no presente tomamos determinadas atitudes. E que atitudes seriam essas? Aqui começa a crítica da escritora.

Em sua opinião, a excessiva cobertura midiática dada à campanha #MeToo trouxe à reboque alguns efeitos perversos que a levam a comparar o papel das redes sociais online com o fórum da Roma Antiga, no qual acusados eram linchados em praça pública para satisfazer o fervor das massas, com ou sem justiça feita. A campanha #MeToo, que na França se tradiziu para #BalanceTonPorc e no Brasil encontrou irmandade mais no #MexeuComUmaMexeuComTodas do que no #EuTambem, desencadeou, em nível mundial, uma onda de acusações de assédio de todo tipo, colocando diversos homens sob holofotes constrangedores. O problema não estaria tanto no ato da acusação em si, mas no seu conteúdo. Pois, acredito eu, ninguém em sã consciência há de negar que as mulheres vivem, há séculos, nos mais diversos ambientes ao redor do mundo onde reinam modelos machistas de comportamento e pensamento. Ou seja, denunciar injustiças que partam de modelos que não enxergam e não aceitam homens e mulheres como possuindo os mesmos direitos – de ir e vir, de trabalhar, de cuidar de si e de seu próprio corpo, por exemplo –, é quase uma obrigação. Para Millet, a questão surge quando o acusado é jogado de imediato em uma fogueira midiática, sem que a ele seja dada voz, pois, segundo ela, chegar à verdade nesse campo é uma tarefa bastante difícil: “testemunhos e artigos de juristas e advogados – mesmo advogados que já defenderam mulheres vítimas de abuso sexual – reconhecem que é muito difícil legislar esses casos, especialmente os casos de estupro, porque sempre se chega a uma situação de ‘palavra contra palavra’. A palavra da acusadora contra o acusado”, pontua.

 

Foram dois os estopins que motivaram Millet a escrever o manifesto: dois artigos publicados em jornais. O primeiro no Libération, trazendo a denúncia de bailarinas contra o coreógrafo Daniel Dobbels, que teria, dez anos antes, feito comentários sexistas às dançarinas. Tal artigo resultou no cancelamento de seu espetáculo, na sua renúncia ao emprego na Escola de Belas Artes e, pasmem, na retirada da queixa. O segundo foi um destaque excessivo, segundo a escritora,  dado ao #MeToo em uma reportagem de capa no Le Monde apenas um dia após um atentado que causou 300 fatalidades no Egito. Criticado por muitos como anti-feminista, esse manifesto de Millet “et al” nos traz uma perspectiva diferente, não menos feminista e até quiçá mais igualitária e libertária que o movimento #MeToo. Para enxergarmos dessa forma, porém, precisamos, primeiramente, entender de onde parte tal pensamento. Em diferentes países encontramos diferentes realidades, com todas suas complexas relações e histórias. A França de Millet é um exemplo quando se trata de reivindicações por igualdade – não à toa seu mote é “Liberté, Égalité, Fraternité” –, possuindo um histórico de batalhas sociais e um legado intelectual que produziu e produz alguns dos maiores sociólogos de nossa história.  A reflexão crítica e o debate fazem parte da cultura francesa. Isso não quer dizer que, nessa realidade, não existam evoluções a serem feitas, afinal, somos todos (ainda) humanos. Por isso que nessa mesma França a campanha #BalanceTonPorc encontrou tamanha força, apontando para uma necessária mudança comportamental de seus cidadãos. Mas é também desse país que parte uma primeira crítica contrária, igualmente necessária para que possamos enxergar onde estamos chegando com nossas atitudes. Para absorvermos o conteúdo dessa crítica, precisamos também entender de quem ela parte: de Catherine Millet, uma pessoa para quem feminino e masculino não são construções sociais apenas, e sim também biológicas; uma pessoa com um histórico de experimentações sexuais e sociais que vê homens e mulheres não como seres iguais em suas constituições biológicas e suas preferências sociais, mas iguais em sua liberdade e seus direitos; e uma crítica de arte, sendo a manifestação artística das mais antigas, genuínas, questionadoras e libertadoras expressões do ser humano.

 

Apesar das diferenças entre ambos países, entre uma França europeia com maior liberdade sexual e um Brasil latinoamericano mais conservador, as repercussões das acusações midiáticas trazem semelhanças. No Rio Grande do Sul existe uma lista, chamada de Apoie a Cena,  contendo nomes de diversas bandas cujos integrantes tiveram denúncias de “atitudes machistas”. As acusações vão de posturas racistas e tentativas frustradas de sedução à agressões físicas. Como resultado, a iniciativa encontrou tanto apoiadoras quanto mulheres contrárias à sua criação. Por quê? Justamente por equiparar atitudes cujos pesos e consequências não são equiparáveis: como colocar no mesmo nível uma tentativa desajeitada, mesmo que machista, de “pegar” uma menina com a “surra” levada pela ex-namorada de um músico? Essa é a questão do conteúdo.

 

[O primeiro problema: conteúdo]

 

Tendo contextualizado o pensamento da autora, podemos melhor entender seu manifesto e trazer suas reflexões para nossa própria realidade. O primeiro problema identificado é, como mencionado, em relação ao conteúdo: são acusados com o mesmo destaque e furor frente ao tribunal público das redes online, agressores sexuais com graves delitos e indivíduos cujos erros foram tentar roubar um beijo, fazer um comentário impróprio ou ter uma “mão boba”. Embora todos possam ser comportamentos questionáveis, não estão, de forma alguma, em paridade e precisamos enxergar isso, pois para cada ação existe uma reação. Se levarmos adiante e ao extremo (como parece levar o #MeToo) a repreensão inquisitiva de qualquer comportamento dito machista, eu pergunto: como ficam nossos relacionamentos reais? Quer dizer que não teremos mais jogos de sedução, não teremos mais flertes e brincadeiras? Tudo deve ser protocolado de acordo com regras preestabelecidas pelo pensamento racional exclusivamente? Me parece que estamos constantemente levando tudo a extremos, sem nem compreendermos a carga simbólica e de valores que cada ponta contém. O pensamento crítico vem justamente no sentido de conseguirmos enxergar o espectro completo de possibilidades entre um ponto e outro, relativizando atitudes e situações antes de forçá-las na dualidade machismo / feminismo.

 

Nesse ponto, vejo que a origem do problema está na percepção que temos do outro – algo que muda imensamente de cultura para cultura. Essa percepção fornece a base para o tratamento que damos ao outro: seremos respeitosos, condescendentes, atenciosos, ríspidos, preconceituosos…? Ela também origina o olhar empático, que nos coloca no lugar desse outro diante de nós e nos faz olhar o mundo a partir de sua perspectiva, ou seja, nos faz relativizar as situações a partir da vivência do outro. Vou trazer esse ponto para o Brasil, país percebido como sexual e passional, predominantemente machista, com uma vocação profundamente arraigada de objetificar a mulher e que, segundo a coluna de David Coimbra na Zero Hora, nos faz passar vergonha durante a Copa na Rússia, com as atitudes (machistas) de uma juventude “idiota”. Como fica, aqui, a percepção que o homem tem da mulher? Eu digo, com segurança, não é a mesma que o francês tem da francesa em sua frente. Então, será que essa primeira crítica levantada por Millet é válida em qualquer contexto? Acredito que não, não com o mesmo peso. Em uma realidade na qual a mulher é constantemente vista como objeto sexual, exposto e acessível à mão de qualquer um, o grito que vem de uma campanha como a #MexeuComUmaMexeuComTodas, ou a #MeuCorpoMinhasRegras, adquire um peso muito diferente e se traduz como um exaurido “basta, não aguentamos mais!”. Em terra brasilis, creio eu, estamos em um dos extremos dessa corda dualista e, em nosso caso, o movimento feminista tem a incumbência de equilibrar nossas paixões, quebrando o estereótipo da mulher como objeto e, assim, despertando o necessário olhar empático que nos tirará da ponta machista do espectro. Não rumo ao extremo oposto, espero.

 

[O segundo problema: o extremo e a censura]

 

Extremos são, obviamente, radicais. Não permitem meios-termos ou tons de cinza – muito menos cinquenta deles! O filme Eu Não sou um Homem Fácil (Je ne suis pas un Homme Facile), francês (claro?!), apresenta uma divertida sátira da inversão de uma realidade machista para uma feminista. Um exercício que serve, em última instância, como reflexão acerca dos papéis que desempenhamos e aceitamos, segundo normas e construções sociais seculares que nos encaixam nos complexos sistemas sociais aos quais tanto queremos pertencer. Romper padrões é uma tarefa que demanda muita energia e, em prol de cumprir com tal objetivo, excessos muitas vezes são cometidos – como os que encaixam indivíduos em categorias generalizantes e equalizam atitudes bastante díspares sob o pretexto de que, “para se fazer um omelete, é preciso quebrar alguns ovos”.

 

Pretexto esse também criticado por Millet durante a conferência e que dá margem para extremismos. Citando o exemplo da escritora Jenny Listman, que denunciou o então já falecido Elie Wiesel, escritor, sobrevivente do Holocausto e ganhador do Prêmio Nobel da Paz (!), alegando trauma e depressão suicida por que ele deixou sua mão escorregar pelas suas costas enquanto posavam para uma foto. Catherine argumenta – “Eu estaria disposta a admitir que uma jovem mulher, especialmente ingênua e pudica, possa ter tido tal reação. Mas daí eu peço, em contrapartida, que se aceite que um grande número de pessoas, no qual eu me incluo e no qual incluímos também jovens mulheres, pode achar essa história completamente ridícula. É o que eu sinto. Será que tantos jornais deveriam ter dado tanta importância a esse depoimento? Eu escolhi um exemplo extremo, é claro, no limite do absurdo. Mas foi a partir de exemplos quase tão caricatos quanto esse, que alguns gostariam de, no melhor dos casos, ter leis mais rígidas contra o abuso sexual e, no pior dos casos, passar por cima da justiça – que eles julgam deficiente – fazendo justiça com as próprias mãos utilizando as redes sociais e a imprensa.”

 

É a partir de contextos extremos como o que estamos vivendo, em que indivíduos amedrontados não se sentem protegidos nem respeitados, pela justiça ou pela sociedade, que afloram reivindicações esdrúxulas como as que clamam pela volta da intervenção militar no Brasil. Desde quando o período de enorme censura, repressão, cessão de liberdade e violência vivido por muitos durante a Ditadura brasileira é algo a ser desejado? Uma situação semelhante que assistimos mais recentemente foi a da censura à exposição Queer Museum no Santander Cultural, cujas obras foram erroneamente interpretadas como incitando a pedofilia, zoofilia e outros disparates. Ora! É papel da arte questionar – algo que muitas vezes ocorre pelo choque e pela ofensa –, assim como também é papel do pensamento crítico-reflexivo. É assim que entendo a origem ou o sentido da “liberdade de importunar” proposta pelas autoras do manifesto francês: “importunar” no sentido de questionar, de jogar, de provocar, de, em última análise, estabelecer nossas preciosas relações humanas! Ou nos tornaremos todos apenas máquinas, programáveis e isoladas em nossa apatia social.

 

A liberdade de ofender está para a criação artística como a liberdade de importunar (não confundir com violentar) está para a liberdade sexual: “Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além da denúncia de abusos de poder, toma forma de ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. E consideramos que é preciso saber responder a essa liberdade de importunar de outra forma que se encerrando no papel de presa”, escrevem as autoras no manifesto. O homem não é o vilão, mas sim a construção social que lhe é imposta em cada contexto. São essas construções, esses papéis, que devem ser questionados e quebrados, assim como são os atos verdadeiramente perversos que devem ser punidos, mas sem jogar todos indivíduos na mesma fogueira alimentada pelo aparato midiático e pelo ódio extremista. Não à toa trata-se de um movimento, o feminismo: ele é gradual e transcorre como o rio que flui no tempo, como a água que, pouco a pouco, vai moldando seu caminho e seu entorno. “Be water, my friend”, já dizia o “sábio” Bruce Lee.

 

Uma boa maneira de quebrarmos esses padrões e os extremismos é a já mencionada empatia. Um exercício para o olhar empático parte do entendimento de que somos, todos e sem exceção, pessoas cheias de contradições e ambiguidades. Ainda no editorial lemos: “Acima de tudo, temos consciência que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e gostar de ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma ‘vagabunda’ ou uma vil cúmplice do patriarcado”. Um exemplo disso é o que traz Millet, em resposta a uma pergunta durante a conferência: “Eu gosto muito da Simone de Beauvoir, justamente por ela ter sido capaz de ter escrito um livro importantíssimo para defender a causa das mulheres e, ao mesmo tempo, ter uma vida livre em relação ao que escreveu. Ela teve um comportamento de mulher ou amante totalmente tradicional – o que sempre me tocou e me marcou”. Ou seja, somos ambíguos, ambivalentes, complexos e contraditórios. Somos, acima de tudo, seres humanos, esses animais imperfeitos em evolução que não têm, nem nunca tiveram, as respostas para as questões mais fundamentais da vida: quem somos, de onde viemos e para onde vamos? E por quê não nos enxergamos simplesmente assim, homens e mulheres, como dois iguais e dois diferentes, não menos e não mais que o outro? Pois, se seguirmos nesse perigoso caminho rumo a um ou outro extremo, corremos o risco de chegarmos no inverso da liberdade – esta que é, justamente, o objetivo último do movimento feminista.

 

_ Agradeço as contribuições de Simone Michelin e Rafael Berndt.