Empreendimentos de uso misto como solução para mobilidade urbana é tema de roda de conversa no Centro Ruth Cardoso

Realizado pelo Esquina: encontros sobre cidades, em parceria com o CRC, evento traz arquitetos que já realizaram projetos de arquitetura de uso misto.

O design de um prédio corporativo deve ser totalmente diferente de um de prédio residencial? Essa foi a discussão que o Esquina: encontros sobre cidades, em parceria com o Centro Ruth Cardoso, realizou na última terça-feira (03), com o tema “Grandes Projetos de Uso Misto”. Para falar sobre o assunto, o diretor da Escola da Cidade e arquiteto, Ciro Pirondi, indicado para restaurar o Copan, em 2001; o arquiteto Mario Figueroa, doutor pela FAU-USP e fundador do Fiqueroa.arq; e Jorge Königsberger, sócio do escritório Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados, que tem como um dos mais de 300 projetos, o Brascan Century Plaza.

Para Königsberger, a combinação de serviços como escritórios, lojas, galerias, áreas de entretenimento, residências e até mesmo hospitais em um único empreendimento, atende funções primordiais para uma melhor qualidade da movimentação da cidade. “As cidades brasileiras são hostis. Ninguém consegue andar tranquilamente na rua, olhar uma vitrine e sentar tranquilo num parque. No meu entender, eu acho que consigo resumir a necessidade dos seres humanos com a cidade em cinco atividades: morar, se locomover, produzir, trocar e se divertir. Quando conseguimos juntá-las em um só espaço, tudo flui melhor”, explicou.

Projetado com esse objetivo, o Edifício Brascan Century Plaza, no bairro do Itaim Bibi, de acordo com Königsberger, propicia uma sensação de abertura e de respiro que o bairro em si não oferece e, por isso, passou a ser ocupado com mais frequência. “Conceitualmente foi dividido em três subespaços. O primeiro é uma praça de passagem, de convite, de descanso rápido; a segunda é uma praça de permanência e consumo e a terceira é um remanso, uma área de permanência e contemplação, sendo mais contida. O segredo é muitas vezes criar condições de todos os espaços sejam ocupados”, disse.

Embora os empreendimentos de uso misto sejam vistos como tendência mundial, Figueroa enxerga o mercado da construção civil de maneira conservadora. “Eu vejo o mercado hoje extremamente fechado e conservador. Por um lado, vemos arquitetos tímidos, poucos investigativos e que não se arriscam. Por outro, a legislação urbanística tenta incentivar projetos de uso misto, mas ainda tem dificuldade de entender o processo do mercado imobiliário. Então, se a gente não tem condições de sentar e se reunir, acho que dificilmente vamos conseguir avançar com essa questão”.

Arquitetos falam sobre empreendimentos de uso misto.

Arquitetos falam sobre empreendimentos de uso misto.

Segundo Figueroa, o uso misto é uma condição metropolitana. “São Paulo começou a ter esse desejo a partir dos anos 1920, quando sai da condição de vila e começa a ser metrópole. Só é possível pensar essa condição de múltiplo uso na perspectiva de uma metrópole, com alta densidade e concentração. O Conjunto Nacional, por exemplo, foi o primeiro edifício de grande porte feito dentro dessa condição de transformação radical de uma avenida”, contou.

A cidade que queremos

O tipo de construção, segundo Pirondi, tem a ver com o exemplo de civilização que a sociedade deseja ser. Para ele, as formas de arquitetura, geralmente, são parecidas, mas o que distingue são os desenhos, as designações e os desejos.

Ele cita como exemplo a arquitetura de pirâmides. As pirâmides do Egito, por exemplo, nominam o lugar, pois sem elas, o espaço seria apenas um deserto. O objetivo delas é o que dá identidade ao local: de serem túmulos. Já em Caracas, na Venezuela, o desenho da pirâmide, embora invertida, tem outro desejo: o de ser um museu – o Museo de Arte Contemporânea de Caracas.

A ideia de lugar múltiplo ou misto é a própria representação da existência da vivência humana. Nós somos, por natureza, muitos e não monos. Arquitetura é um saber de fronteiras, como se fosse um rio, que navega em várias formas de crescimento. É uma forma de conhecer e também um conhecimento em si mesmo. Quais tipos de cidades e civilização queremos construir? Se é uma civilização formal, eu acho que a arquitetura tem pouco a dizer. Mas se é uma civilização mais justa, múltipla e bela para todos, a arquitetura tem muito a dizer”.

Dificuldades

Perguntados do motivo de, atualmente, construções de uso misto não serem realizadas, os arquitetos discordaram em alguns pontos. Figueroa, por exemplo, acredita que é consequência da falta de inventabilidade e da falta de se arriscar.

“Hoje, a legislação permite e estimula esse empreendimento, mas a falta deles é decorrente desse momento muito crítico que estamos vivendo, onde ninguém quer se arriscar. Além disso, já não há mais terrenos e tudo o que sobrou de São Paulo tem algum problema: ou legal, ou ambiental, ou é muito pequeno. Para mudar isso, precisamos inventar, ser mais engenhosos e não reduzir uma cidade como São Paulo à moda de vender apartamentos de oito metros quadrados”, opinou.  

“Eu discordo de você quando fala sobre legislação”, criticou Königsberger. “A legislação sempre permitiu, mas cada gestão de prefeitura com suas especificidades e, ironicamente falando, eu me pergunto o motivo disso. E sobre se não estão sendo feitos empreendimentos mistos, eu discordo. Pelo contrário, acho que sim, mas maneira mais silenciosa. A cidade naturalmente é de uso misto. Se não fosse a necessidade das pessoas de exercer funções diferentes no espaço urbano, seria melhor viver no campo”, completou.

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