No aniversário de 87 anos de Ruth Cardoso: o legado permanece vivo.

 

Texto por Yvonne Maggie – antropóloga, escritora, membro do Conselho do CRC e amiga de Ruth Cardoso.

Dia 19 de setembro é o dia do aniversário da nossa querida Ruth Cardoso, mestra e amiga que nos deixou cedo, mas nos brindou com um legado inesquecível. Sua obra como antropóloga, os muitos estudantes que orientou e sua participação ativa no Governo de Fernando Henrique Cardoso com a criação do Programa Comunidade Solidária, revelam sua grandeza.

Ruth, como era chamada pelos amigos e estudantes, era uma pessoa simples, cheia de humor, além de ter uma inteligência vibrante. Ao longo de sua carreira, mas sobretudo a partir dos anos 1980 desenvolveu as ideias básicas que nortearam a sua atuação na criação do Programa Comunidade Solidária. Foi nesse programa que traçou as linhas mestras que deveriam produzir uma relação rica e saudável entre Estado e sociedade civil.

Sua preocupação básica era ajudar a criar uma cultura de enfrentamento da questão social a partir do envolvimento da sociedade civil. Ruth dizia que sua condição de mulher do Presidente da República lhe havia dado a oportunidade de criar o Programa Comunidade Solidária (Ruth recusava o título de primeira dama, como todos sabem). Porém, como afirmou Helena Sampaio em um ensaio em homenagem à mestra: “certamente, ao lado da oportunidade, foram sua trajetória intelectual, aliada ao seu espírito democrático, sempre atento à importância do debate de diferentes pontos de vista, os ingredientes para que concebesse o Comunidade Solidária como um espaço que, como dizia “experimentou um novo modo de fazer projeto social e propôs um novo padrão de relacionamento entre Estado e sociedade”.

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Ruth Cardoso no Município de Piranhas, em sala de aula.

O projeto do Comunidade Solidária foi gestado desde os anos 1980 quando a antropóloga Ruth Cardoso fez suas pesquisas e aprofundou o seu conhecimento sobre os movimentos sociais. Foi a partir daí que iniciou sua reflexão sobre as novas formas de representatividade e de relação entre o chamado Terceiro Setor e o Estado. Ruth dizia que : “A oferta de serviços públicos é uma obrigação do Estado, mas atuar para diminuir as desigualdades é uma tarefa de toda a sociedade.”

O Comunidade Solidária compunha-se de um Conselho e a partir dele foram criados os programas Alfabetização Solidária, Artesanato Solidário e Universidade Solidária. Três pilares de um projeto que visava dar nova forma aos programas sociais. Segundo ela, os programas assistenciais são necessários pontualmente, mas é preciso investir em inovação e em políticas que não alimentem o ciclo da miséria. Os programas do Comunidade Solidária cumpriram estes objetivos. Eram avaliados e tinham metas bem claras.

Tive o privilégio de participar da avaliação do Universidade Solidária desde a sua criação e de ver a dedicação e o empenho de Ruth em seu objetivo de criar redes, de fortalecer as redes existentes em comunidades distantes e de estreitar os laços entre as universidades e as comunidades mais pobres em municípios distantes dos grandes centros.

Tenho o privilégio de participar do Conselho do Centro Ruth Cardoso, criado depois de sua morte e que carrega a responsabilidade de dar continuidade a estes programas e ao legado de Ruth.

Fui testemunha de sua forma democrática e aberta de lidar com todas as pessoas com as quais trabalhava e do carinho e admiração demonstrado pelos que conviviam com ela.

Os seus ensaios acadêmicos foram importantes na criação de uma linha de pesquisa rica e internacionalmente reconhecida. Em 2011 foi lançado um coletânea reunindo escritos de Ruth Cardoso de 1959 a 2004 e organizada por Teresa Pires do Rio Caldeira. Nesta coletânea, de leitura obrigatório, há um conjunto que mostra a forma moderna pela qual a compreendia a sociedade brasileira.

Ruth faz imensa falta ao nosso país e é uma ausência sentida por todos os que tiveram o privilégio de conhecê-la e de conviver com ela.

Se o mês de junho, mês das festas de São João pelo Brasil afora, estará sempre na minha memória como o tempo da tristeza de ter perdido uma professora e uma amiga a quem devo muito e para quem quero fazer essa pequena homenagem relembrando sua atuação na política e na vida acadêmica, setembro, o mês das laranjeiras castas, no dizer do poeta maior do simbolismo, Alphosus de Guimaraens, será sempre o tempo de celebrar o nascimento e a vida da amiga Ruth Cardoso.

 

Centro Ruth Cardoso

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